No ano de 1980 saiu da linha de produção da Neiva, em Botucatu (SP), um EMB-711ST Corisco Turbo, daqueles com cauda em T, número de série 711319. Agora em 2026, quase meio século depois, ele comprova que avião não tem idade desde que você o mantenha bem e este, meus caros, é muito mais que bem mantido. Lá pelos anos de 2013 ele foi assunto na HiGH 39, pois tinha ganhado um painel com suíte de aviônicos Garmin G500/SVT, mais o GNS530W e outros periféricos, tudo feito pela Eletronave, no Paraná. Atualmente se você colocar a cabeça para dentro da cabine notará que um monte de coisas mudou de lá para cá. A razão foi uma planejada viagem do Brasil aos Estados Unidos, o que exigiu a troca do transponder por um com modo ADS-B, que além de receber deve transmitir as informações de onde você está. Foi então colocado um Garmin GTX345 in/out. Esse equipamento funciona conectado via bluetooth com um iPad e de lá podem ser vistas as informações de tráfego.Também estava na mira a substituição do GNS530, que não é mais fabricado e nem tem suporte da Garmin. Em determinado momento apareceu uma oferta na Jazz Engenharia Aeronáutica, oficina especializada na marca, que estava procurando esse aviônico para outro cliente. Eles formataram a oferta para substituí-lo por um GTN750, foi feita a negociação, e o orçamento coube no bolso. Já que ele ocupa o espaço do GNS530 e mais uma caixa de áudio, optou-se por um GTN750 com caixa de áudio embutida. No aproveitamento foi comprado um Garmin FS510 que forma uma rede Wi-Fi dentro do avião e possibilita integrar todos os aparelhos no iPad e fazer as atualizações de base de dados do GTN. A caixa de áudio GMA35C tem a possibilidade de comando de voz.

É bem útil em vez de ficar apertando botão ou ainda a tela sensível do instrumento (e engordurando algo que demanda um tipo de limpeza especializado). Há perto de 50 ordens vocais para mudar a imagem, mostrar o tráfego, conferir informações do aeródromo de chegada, permitir escolher os procedimentos, fazer correr a página para cima ou para baixo, ampliar ou reduzir o que está sendo mostrado, enfim, uma série bem longa de comandos. Funciona, mas é preciso fazê-los em inglês com sotaque Garmin. Painel aberto, coçaram os dedos para substituir o piloto automático S-Tec 50, que é do tempo do onça. Foi então colocado no lugar um GFC500 de sistema digital que tem botão azul de correção automática de atitude de voo fora do padrão de segurança. Curiosamente a Jazz achara um comprador para o S-Tec 50, o que garantiu algumas moedas para aliviar a compra do novo equipamento. Só que para a novidade funcionar é preciso colocar um Gi275, que é o cérebro que comanda o piloto automático. Houve uma certa discussão onde instalá-lo até que conseguiram um lugar à direita do painel. Foi trocado o cronômetro de bordo por um Av20, que possui indicador de carga G, de ângulo de ataque e até de altitude densidade e horizonte artificial. Também estão a bordo dois GPS portáteis Aera 660, grudados nos manches e integrados ao sistema como um todo. Contabilizando tudo, é ver como se voa o Turbo. Feito o plano de voo no iPad, você sobe as informações via Wi-Fi para o GTN750. Decolagem feita, piloto automático acionado e você vai monitorando tudo. Qualquer mudança de rota é feita no iPad e depois transportada para o GTN. Reconhecida a alteração, ele automaticamente replica as informações nos Aera 660 que estão no manche.

O bom disso é que não há mais fios pendurados no painel. O Corisco Turbo tem apenas um alternador, em caso de pane foi preciso o pensamento de engenheiro para elaborar o que pode ser desligado a fim de garantir a energia para alimentar os equipamentos essenciais ao voo. O Corisco ainda mantém instrumentos analógicos de motor, velocímetro, horizonte e altímetro que possibilitam voar tranquilamente. Mas para os rádios foi pensado um esquema inverso. Normalmente o equipamento principal seria o integrado ao GTN750, porém se por um motivo ou outro fosse necessário desligá-lo, porque ele gasta mais energia, o piloto ficaria sem rádio, uma vez que não haveria como acessar o equipamento secundário. Então, neste painel, o que seria o rádio secundário, um compacto Garmin SL30, foi deixado como primário. No cotidiano usa-se o do GTN750, mas em emergência você tem a possibilidade de esquecê-lo. Resta saber o que mais poderia ser feito. O céu é o limite. Do jeito que está há segurança, confiabilidade e utilidade para pelo menos mais dez anos.

Porém, mais do que ver o que pode ser feito, é preciso saber como vai ser feito. As configurações no Turbo tiveram acompanhamento direto do proprietário. Houve bastante aprendizado de como integrar os sistemas, e os próprios técnicos não regatearam em correr atrás diante das indagações do cliente. Quem voa, ao começar a fazer um trabalho de atualização de painel, tem que pensar também como é o uso do avião, o que fica mais ergonômico e, claro, pensar o que ele fará com a máquina em tantos anos pela frente. O painel desse Corisco é capaz de se equivaler em valor ao próprio avião. Se fosse pensar em vender a máquina, talvez um número para começar a barganhar estaria em torno de R$ 2,5 milhões. Há uma série de alternativas com performance superior, mas com os mesmos recursos embarcados talvez seria preciso desembolsar uma vez e meia, ou até um pouco mais, para ter algo semelhante. Provavelmente não valerá a pena. A primeira reforma do painel aconteceu há 15 anos, nesse meio tempo o avião voou cerca de 2.000h. Numa conta de padaria, o investimento inicial foi bem diluído. Se pensar nos próximos 15 anos, o fator que acaba com qualquer indagação sobre os custos será a impagável segurança que toda a integração dará a cada hora de voo.

 

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Jazz

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