Bancada ruralista

O negócio é aprender a fazer turismo com o que se tem em casa

Carlos Adalberto viu da janela do apartamento uma pizzaria ser instalada na esquina. Do confinamento de um dos tantos condomínios em São Paulo, sentia todas as manhãs o cheiro da lenha queimada no forno do lugar. Vieram lembranças da infância no interior na casa da avó, onde eram preparavas todas as refeições no fogão que consumia madeira, e das longas conversas em volta da mesa que fechavam o dia após tantas brincadeiras na roça. Uma liberdade que ele já não tinha mais e daria tudo para ter de volta. Imagine agora que isso tudo pode ser novamente acessível ao custo de R$ 90,00 por dia. Sim, isso ainda existe e fica em Tangará (SC). Este é o preço da diária mais cara, por pessoa, num quarto do Sítio São Pedro. Comece a rir, pois esse lugar está infindavelmente longe de algo que cobre mais ou menos o mesmo patamar de tarifa num esculachado hotel ao lado de uma rodoviária nos cafundós do Judas. Erguida em cima de um jardim gramado, a casa sede principal da pousada é feita no mais tradicional jeito sulista. A estrutura geral é feita em madeira. Entrando nos quartos a sensação é de que quem arrumou a cama foi uma nona. A roupa de cama florida, a parede pintada em cores vivas, as janelas de madeira, o piso, tudo remete a um passado de saudade. Não há TV, telefone ou ar-condicionado nos quartos. Num dos ambientes há uma decoração como a de um papel de parede floral, só que feita à mão com carimbos confeccionados em tecido. Quem criou foi o pai de Pedro Longo, dono do Sítio São Pedro, quando o lugar em 1962 era a residência da família (sendo que nestas terras a família Longo se estabeleceu em 1933). Atualmente eles ainda moram ali, mas o trabalho da lavoura foi substituído pelo turismo. Entre um gole e outro de um dos licores que ele mesmo produz, Pedro nos conta que a ideia surgiu em 1997 depois de ter sido feita uma visita técnica em São Martinho (SC), onde haviam transformado um galpão de preparo de folhas de fumo em hospedaria. Se fizeram lá, a mesma coisa poderia ser feita em Tangará. O resultado foi inaugurado em dezembro de 2002. As diárias contemplam a dormida, a conversa, o café da manhã e o jantar. O que vai à mesa é preparado pela Eronilce Secco Longo, matriarca da casa. Aqui é deixada de lado toda a frescura da alta gastronomia, eles servem algo melhor, comida de mãe. E a fartura é sempre presente. No café da manhã os pães são todos feitos na casa, o pastel de carne com a massa bem crocante é quitute para não deixar sobrar. No jantar o que impera é a comida italiana de fazenda. Um tortei com recheio de abóbora e um sutil toque de noz moscada, o macarrãozinho com um molho de tomate nada ácido forrado de queijo, e uma espécie de torta ou suflê com mandioca cozida de roubar a receita que eles chamam de pizza de mandioca. O frango e a costelinha de porco servidos com batatas graúdas eram de repetir todas as possíveis vezes. Na salada sempre tem radicchio. Um grupo de Bragança Paulista sempre freta um ônibus para ir até lá, e se não tiver a comida da Dona Eronilce, eles simplesmente não vão. A casa, por sinal, tem cheiro de pinhão assado na brasa. Eles estruturam bem o lugar para receber uma boa quantidade de gente. E se não for hóspede, comer lá é por agendamento. O restaurante feito no porão onde se guardavam as pipas de vinhos, mantimentos e que servia também como garagem, tem 110 lugares e acomoda todos aqueles que ocuparem os 16 quartos da sede principal e os outros sete quartos da casa ao lado (nestes, o banheiro é coletivo e a diária é de R$ 70,00 por pessoa). Entretanto, mais que a curiosidade de se hospedar num hotel tão família, o Sítio São Pedro faz parte de uma investida maior que está sendo bancada pela prefeitura local. Tangará, além da agricultura, vive da reciclagem industrial de papel. Aparas do Brasil inteiro vão para lá e viram material para fazer papel higiênico, toalha de secar mãos e tudo mais que possa ser feito com o material. No lugar existe também o Morro Agudo, que é considerada a terceira melhor rampa para voo de paramente e asa delta no país. O esporte de aventura é muito forte naquela região por conta da geografia, cheia de altos e baixos dos terrenos, que faz atrair o pessoal adepto da caminhada, da bicicleta e da motocicleta fora de estrada. Mariana Fontana, secretária de desenvolvimento econômico e de turismo, nos explicou que em 2017 durante uma mostra de vinhos na cidade vizinha de Videira (e que também participam em anos alternados as cidades de Tangará e Pinheiro Preto), foi feito um concurso de molhos à base de vinho e quem ganhara foi uma moradora de Tangará. Uma juíza deste concurso, que era de fora, foi então convidada a provar um prato com o tal molho na casa de uma família. Ao conhecer o lugar e os arredores ela viu o potencial turístico e deu a sugestão de ser feito um circuito que explorasse as cercanias de Tangará, proposta que foi acatada e aberta pela prefeitura no ano passado. O Circuito Caravaggio tem esse nome por conta das origens dos colonos que fundaram Tangará e que vieram daquela parte da Itália. São 25 km de extensão contemplando sete propriedades, mais uma igreja, e o paradouro Andretta, um mirante aos 901m de altitude com a vista espetacular de um vale de cultivo. O visitante tem à mão o turismo de experiência em hospedagem, gastronomia, contemplação e religiosidade. Na igreja de Tangará está, por exemplo, um relicário com um pequeno osso de Santo Antônio. Apesar de pouco tempo, até que o circuito está bem sinalizado e a estrada de terra ganhou uma melhor manutenção. Do conjunto, o que vale mesmo é a interação com as pessoas e seus costumes. A Veronice Rissardi, que sabe lá por que cargas d’água todo mundo chama de Ana, faz doces, compotas e vinhos do que produz no seu campo. O filho Felipe Rissardi ainda está estruturando uma cervejaria artesanal. Impressionante como eles acham tempo para fazer tanta coisa e ainda deixar a propriedade impecável. Não existe nenhuma folha de grama fora do lugar, tudo é muito limpo. Da pequena produção da linha DonAna a compota de figo  (R$ 15,00 – 700g), a geleia de uva (R$ 100,00 – 300gr), ou a compota de pêssego (R$ 12,00 – 700g) levam pouco açúcar, o que faz com que o sabor da fruta se sobressaia. Nelas não é usado nenhum conservante. Menos de meia légua dali tem a Sucos Nova Esperança. O visitante pode acompanhar todo o processo de fabricação do suco, que pode ser de uva Bordeaux e Isabel para a versão tinto, e o branco, de uva Lorena ou Niagara, e ainda o de maçã Fuji e Gala. Eles também fazem o vinagre de maçã. Os produtos também não têm conservantes e nem adição de açúcar, o dulçor é natural da própria fruta. Mas o que mais impressiona é quem toca o dia a dia do negócio. Samuel Menegolla tem apenas 16 anos e é bem esperto sobre as condições de mercado e da luta em colocar na gôndola dos supermercados um produto que ele sabe que é de melhor qualidade e, portanto, tem o seu preço. Um suco de uva em garrafa de 1,5l sai por R$ 10,00 na sua loja e ele já viu produto concorrente sendo oferecido no supermercado por R$ 7,90. Sabendo que o custo de produção do litro do seu suco é de R$ 7,00, ele acha que provavelmente o que está sendo vendido é algo diluído e não 100% puro como o dele. É fala de gente grande. Paralelamente existe outro circuito, o de vinícolas. Quem nos explicou foi Celso Panceri, natural de Tangará, nascido numa casa onde fica a sua vinícola. O roteiro que ainda está em fase embrionária tem o nome de Caminho das Terras Altas Catarinenses e reúne, além do seu negócio, as vinícolas Kranz de Treze Tílias, a Villaggio Grando de Caçador e a Santa Augusta de Videira. O mote é semelhante ao que existe em Bento Gonçalves (RS), onde o turista faz uma imersão de enoturismo experimentando todas as bebidas e cultura da região. A Panceri tem inclusive um pequeno museu do vinho, que apesar do tamanho é muito rico em peças. Muito provavelmente haverá uma simbiose com a proposta do turismo rural do Circuito Caravaggio. E vai servir também para divulgar mais o produto vinho em outras paradas, que como disse o Samuel aí em cima no texto, é uma tremenda luta, mesmo tendo um volume de produção que chega a 150 a 200 mil garrafas por ano e já coleciona alguns prêmios. O custo de colocar o produto em lugares como São Paulo é alto e faz com que eles, como também os tantos outros produtos desse lugar, acabem focando principalmente no consumo interno, apesar de a Panceri ter conseguido exportar. Para isto teve que criar rótulos com ilustrações de pássaros nativos para caracterizar melhor o seu produto. O Tangará, um 100% merlot 2015, o Sabiá, um 100% cabernet sauvignon 2015, e o Beija Flor, um sauvignon blanc 2017, todos saem na vinícola por R$ 27,00. Aí que entra o esforço de transformar a região num destino a ser descoberto até para visar uma maior comercialização dos produtos. Quem quiser que vá até lá. Isto nunca será uma viagem perdida. É preciso um longo trabalho de qualificação de quem vai fazer o receptivo (boa parte do comércio de rua de Tangará fecha na hora do almoço). No Sítio São Pedro existe alguns pênaltis como, ironicamente, o apuro estético. Enquanto eles têm no próprio local toda a matéria-prima para ser usada na decoração, com a vantagem de melhor harmonizar e manter o aspecto rústico legítimo, você dá de cara com uma porta de banheiro sanfonada de plástico. Um gabinete de banheiro tem padrão loja de móveis populares. Eles têm no terreno a casa original onde a família se estabeleceu e se hoje é basicamente um depósito, com uma pequena reforma e adaptação de sistemas elétrico e hidráulico, mantendo as características originais, aquilo pode virar um apartamento de muito luxo. De um modo geral, ainda não há o reconhecimento da população do valor daquilo que, para eles, é o seu cotidiano ordinário. Falta a percepção que esse campo pode ser no futuro um grande ganha pão. Ao mesmo tempo em que Tangará precisa ser descoberta, ela precisa abrir sua mente para além dos limites de sua fronteira. Mas saiba que desde já é um destino a ser muito bem curtido.

Mapa de rotas

Dica do piloto:

Videira tem o aeródromo mais perto (SSVI 27º00’00”/051º09’27”W) e fica a 23km do centro de Tangará. A pista possui 1.460m em asfalto, onde funciona o aeroclube local e existe abastecimento de querosene e gasolina.

Como chegar:

Boa parte das pessoas acaba utilizando a Rod. Régis Bittencourt (BR116) para na sequência chegarem Tangará por Fraiburgo pela SC-355. É preciso muita paciência com o tráfego de caminhões da  BR116 e muita atenção com o péssimo estado da SC-355 com muitos buracos que podem danificar as rodas. Caso não vá de veículo próprio é bom consultar onde seria mais viável alugar um carro (em Tangará não existe locadora) pois será necessário para percorrer todos pontos a serem visitados.

Endereço:

Sítio São Pedro

Linha Bracatinga, s/nº – interior Tangará – SC

Tel.: (49) 9 9129 8335

www.sitiosaopedrotangara.com.br

DonAna Sucos e Doces Artesanais

Linha Bracatinga, s/nº – interior de Tangará – SC

Tel.: (49) 3532 1585 / 9 9196 9954

Vinícola Panceri

Linha Leãozinho, s/nº – Tangará – SC

Tel.: (49) 3566 7700

www.panceri.com.br

Sucos Nova Esperança

Linha Sagrado Coração de Jesus, s/nº – Tangará – SC

Tel.: (49) 3532 1129 / 9 9191 0864

www.facebook.com/sucosnovaesperanca