Suporte de negócios

Leonardo Fiuza
Leonardo Fiuza
Flavio Abag
Flávio Pires

Como tudo nessa época de pandemia, o bolso da aviação executiva está vazio. Esse setor de negócios, da mesma forma que o transporte aéreo regular, foi duramente atingido. Com as atividades das empresas reduzidas e mais a questão do isolamento social, determinaram a cena em que se voou muito pouco nos últimos três meses. A imagem da aeronave particular parada talvez crie uma impressão do tanto faz, afinal, a utilização dela abrangeria poucas pessoas, entretanto o contexto é outro. No entorno dessa aeronave existe toda uma rede de fornecedores de serviços e produtos que consequentemente paralisaram ou reduziram brutalmente as suas atividades. E há a outra face dessa aviação de negócios que é formada pelas empresas de táxi aéreo. As frotas se não as utilizadas em contratos prévios de serviços essenciais como a de apoio às plataformas de petróleo, ambulância ou de patrulhamento florestal, por exemplo, permanecem no chão esperando a volta das atividades. Evidentemente, como tantos, esse segmento não está tendo muito de onde tirar dinheiro para se sustentar. Numa conversa com Flávio Pires, Diretor Geral da Abag – Associação Brasileira de Aviação Geral e com Leonardo Fiuza, presidente da Tam Aviação Executiva, além de ser também ser presidente do conselho da Abag, eles nos mostraram as propostas para amenizar a situação. Segundo Flávio Pires, enquanto que na aviação comercial os números da queda de operações, demanda de passageiros e oferta de serviços navegam em torno de 93 a 97%, no setor da aviação de negócios o número mais visto é de 85%. Um pouco menos então, mas crítico ainda. Reuniões da Abag junto com as empresas e os órgãos do poder público que gerenciam o setor foram feitas desde março e num primeiro pacote adaptações das exigências da Anac e demais órgãos fiscalizadores, incluindo o DECEA, foi acertado a postergação de exigências como as de renovação de licenças, exames médicos, credenciamento de examinadores dentro de centros de treinamento, certificações de linguística (o tal inglês ICAO) e treinamentos de tripulações que seriam difíceis de serem cumpridas em tempos de isolamento social, para que isso não afetasse a operacionalidade das empresas. O que estava vencendo entre fevereiro e junho de 2020 tiveram suas obrigatoriedades de renovação postergadas em 120 dias. As empresas também receberam a isenção das reuniões obrigatórias, que são ordinárias, para tratar de comitês de segurança aeroportuária e novos critérios para ensino à distância  para treinamentos de tripulações estão sendo planejados. Inclusive uma nova rodada de negociações dos mesmos temas estão acontecendo, pois o período de adiamento está se esvaindo. Uma das medidas estudadas junto com a Anac é do recheque da tripulação feito na própria aeronave, em virtude da impossibilidade de se viajar ao exterior, onde ficam a maioria dos centros de treinamento em simuladores de voo. Junto ao DECEA foi pedido o adiamento da cobranças de taxas de navegação e utilização de espaço aéreo dos meses de março, abril e maio. A Infraero e DAESP que são responsáveis pelas maiores e mais altas fontes de despesas (aluguéis de terrenos sob concessão, taxas de pouso, permanência em pátios) também cederam aos pedidos chegando a uma redução de 50% do valores cobrados (no caso da Infraero) e, em geral, os pagamentos foram adiados em cerca de cinco meses da data original de faturamento. Entretanto Fiuza salienta que o nível de desconto das taxas aeroportuárias e os prazos mais longos para pagamentos não são suficientes para aliviar a saúde financeira das empresas. A Abag tem se reunido junto ao Governo Federal para tentar criar uma linha de crédito que seria de R$ 10 a 40 milhões para poder dar fôlego as empresas do setor para que elas consigam chegar saudáveis no primeiro trimestre de 2021. Pois mais que sobrevivam ao tempo de paralização, todo o setor vai ter que se virar para trabalhar durante a retomada das atividades, um período sem muito caixa, mas terão que funcionar e a demanda de serviços ainda será baixa. Um relatório da IATA – associação internacional de transporte aéreo (assunto publicado na HiGH 82) mostrou que o passageiro das companhias aéreas deve demorar pelo menos seis meses para voltar a viajar, seja por lazer ou para negócios, após a decretação de que a pandemia do Covid-19 estivesse contida. A questão é se tal ajuda será conseguida, pois em recente entrevista, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou que não iria ter nenhuma molezinha para as empresas aéreas em referência as disponibilidades de linhas de crédito que o governo planeja implantar. Se ele disse isso para o setor que tem mais visibilidade na mídia e sem dúvidas afeta mais diretamente o cotidiano do passageiro comum, dá para tentar imaginar a consideração pela aviação corporativa. O grande impasse, segundo Flávio Pires, é de estabelecer as garantias de pagamento desses empréstimo junto aos bancos apesar da consideração em usar o fundo nacional de aviação civil como o grande garantidor para as pequenas empresas. Para o mercado geral, alguns bancos retrucam que não podem efetivar os empréstimos pois as empresas tiveram redução de faturamento durante a pandemia e ainda existe o medo de que várias não sobrevivam à um cenário pós-pandemia com mercado bem mais reduzido. A coordenação da distribuição dos valores seria feito diretamente com o BNDES até determinado montante e acima deste, pelos agentes bancários. Enquanto isso as empresas da aviação corporativa tem se adaptado ao novo cenário. Na TAM Aviação Executiva, Fiuza nos disse que a área de manutenção continuou operando, houve uma redução, mas foi menor que o setor de atendimento aeroportuário onde, segundo o executivo, existem empresas que sofreram uma redução de cerca de 90%. A parte de hangaragem não teve muita redução, apenas o faturamento. O fretamento reduziu mas recebeu uma certa compensação com a possibilidade do transporte de carga, medida que foi conseguida com a ação da Abag junto à Anac a toque de caixa, pela necessidade de transportar insumos hospitalares compensando a redução acentuada da malha aérea das empresas aéreas. Entretanto nas palavras do Flavio Pires, a ajuda governamental é fundamental para sustentar tanto a aviação de negócios como a comercial. Os demais países do planeta estão com programas de ajuda para sustentar suas aviações, que somadas, passam de US$ 1 trilhão e o alerta é que o impacto da pandemia é grande com uma combinação explosiva, onde as empresas trabalham com mão de obra e operações de alto custo (como a de leasing e estruturas) e, sem a ajuda do governo, nesse momento e nem na retomada, a conta não fecha. Seria quase que uma decretação de fechamento de um setor estratégico e essencial e que não vai ser com as suas próprias pernas que ela vá sair da crise.