Custo marciano

O conceito de imediato não é tão estranho assim, mas que gera estranheza, isso gera. A promessa vinha sendo divulgada há meses e agora está sendo cumprida. Para quem for motorizado para o aeroporto Campo de Marte em São Paulo, terá que pagar o estacionamento. A ideia inicial era de que a cobrança sob responsabilidade da BH Park em parceria com a Infraero começasse em 1º de dezembro de 2018, mas a falta de planejamento e definição do que iria ser feito resultou em seguidos cancelamentos até a cerca de um mês e maio atrás. Segundo o que mostra um folheto distribuído pela BH Park a tabela de valores cobrados começa com R$ 10,00 pelo período de 21minutos a 1hora e pode chegar a R$ 40,00 pela diária ou então pelo período de permanência de 3 a 4h. Motos pagariam a metade e haveria uma tolerância de 20 minutos de permanência isento de cobrança. Há pacotes para mensalista custando em torno de R$ 200,00. Na Avenida Paulista, centro de negócios da capital é possível estacionar por 1h por R$ 12,00. Em ruas próximas como a Avenida Angélica, alguns estacionamento cobram de R$ 10,00 a R$ 15,00 por um período de 12h. Na Vila Madalena, bairro boêmio paulistano e onde todo mundo reclama que o preço dos estacionamentos é abusivo, o valor por um período que pode chegar a 12h é de R$ 25,00. Segundo a BH Park, a cobrança do estacionamento vai incidir nas vagas das vias públicas internas do Campo de Marte. Acontece que se cobrar não é tão fora de questão, afinal de shopping center até prédios particulares invariavelmente a pessoa paga para usar o estacionamento, o modo que é feito no Campo de Marte é um tanto esquisito. Imagine que alguém tenha que ir fazer uma sessão de simulador de voo na Delta 5, em seguida vá ver alguma peça na Aristek e por fim vá pegar a sua aeronave que está hangarada na TAG e sair para um voo com retorno previsto para o dia seguinte. A pessoa vai ter que proceder da seguinte forma. Ela entra com o carro no Campo de Marte e pega o bilhete que permite a tolerância de permanência gratuita por 20 minutos. Como algumas empresas tem vagas dentro de sua área de concessão, elas tem uma quantidade de cartões com isenção de pagamento. Elas permitindo que você estacione lá, você tem que pegar um cartão deles e voltar até a portaria para a troca dos cartões. Mas a coisa não é tão simples assim. É preciso que você saia do recinto interno do aeroporto com o seu carro, nessa hora você devolveu o primeiro cartão da tolerância de 20 minutos. Então é preciso pegar a Av. Olavo Fontoura, que fica em frente, seguir por algo como 500m, fazer um retorno para pegar a pista contrária, voltar outros 1.000m e então pegar outro retorno, voltar e passar pela entrada da portaria novamente agora usando o cartão com a isenção. E esse procedimento tem que ser feito cada vez que você sai de uma das empresas que funciona no aeroporto e segue para outra. Caso contrário, se usar continuamente um dos cartões, estará bloqueando a vaga da empresa que lhe cedeu a permissão anteriormente. E nada que não pudesse ficar pior. No final de uso do cartão, quando a pessoa for embora, ela tem que passar o tal cartão no sensor de saída da portaria, sendo assim uma pessoa da empresa que lhe cedeu o cartão teria que ir junto para pegar o cartão de volta. Agora pergunte como essa pessoa retorna para o seu hangar que pode estar do outro lado do aeroporto. No mínimo terá que ir em dois carros, sendo que quem estiver de saída terá que parar logo depois da cancela para devolver o cartão. O duro que o funcionário que lhe acompanhou não terá onde parar o carro se quiser ficar dentro do aeroporto, pois para estacionar, teria que ter um tíquete de estacionamento que só é gerado na entrada da portaria. A opção pode ser que ambos tenham que sair do aeroporto e quem o escoltou tem que fazer todo o circuito na Av. Olavo Fontoura para entrar novamente no Campo de Marte. A sessão de bizarrices continua. Uma fonte nos contou de um caso de uma pessoa que recebeu o seu cartão com isenção de pagamento, mas foi avisado que aquilo valeria apenas para estacionar na vaga no pátio onde fica a sua empresa. Se tivesse que ir em algum outro hangar teria que usar um outro bilhete pago ou isento. Ou seja, se a pessoa quiser ir almoçar num dos dois restaurantes que existem no aeroporto, teria que ou ir à pé – o que pode significar uma caminhada de 2,5 km sob sol ou chuva – ou então pagar as taxas de estacionamento tendo que fazer todo o procedimento de saída e reentrada do aeroporto. Vale lembrar que não existe nenhum sistema de transporte interno com vans que possa facilitar a vida de quem trabalha no Campo de Marte. Tentamos entrar em contato com a BH Park para saber se existiria alguma alternativa para evitar tal dor de cabeça, mas eles não retornaram os contatos, somente limitaram a informar via email que se não tiver o cartão de isenção, passado os 20 minutos de tolerância, haverá cobrança e que cada concessionário vai receber um montante de cartões de isenção proporcional as vagas que ela possuir em sua área. Mas é evidente que essas não atendem a demanda. Os policiais civis e militares que estão locados naquele aeroporto tem que se virar nas vagas nas vias públicas. A situação da Polícia Civil é a pior, os carros particulares e viaturas ficam estacionados de forma precária numa terreno de chão de terra em frente ao hangar. Não são exatamente vagas, a coisa acontece de forma improvisada  num terreno que quando chove, aquilo vira uma lamaçal. A BH Park ou a Infraero não construiu nenhuma nova área de estacionamento naquela área. O Aeroclube de São Paulo também não tem vagas suficientes para acolher todos os alunos que passam por lá. E são esses que vão pagar o pato, o custo do estacionamento não será absorvido pelo aeroclube. Um portador de empresa de entregas não vai querer pagar R$ 20,00 ou mais porque o cliente demorou para fazer o pacote. Se alguém pedir um táxi, vai ter que estar de prontidão para seguir viagem, ou muito provavelmente terá que pagar a diferença do estacionamento se o taxista tiver que ficar esperando pelo embarque. Como se imagina, haverá ronda de fiscalização feito pela equipe da BH Park como também seguro. E se eles acharam que aquilo poderia ser uma mina de ouro, tem só se mostrado uma dor de cabeça. Pois a cada dia tem caído o número de pessoas que seguem para o aeroporto com seus próprios veículos. Do jeito que a BH Park cobra, é mais barato ir de transporte público, Uber ou táxi. E nem pense que poderia ter áreas para parar bicicletas que porventura poderiam ser usadas coletivamente para um deslocamento interno. Esse tipo de pensamento moderno ainda não chegou em Marte.

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