Sonho meu

Se você quiser uma comprovação de que a aviação vicia, siga para São José dos Campos (SP). E essa dica não tem nada a ver com a Embraer. É que a cidade será a base operacional da Asas Linhas Aéreas, uma companhia nova que chama a atenção por vários motivos. Ela começa prestando serviços de transporte de carga voando o 727-200F, admirado jato clássico da aviação comercial e que um dia foi o Boeing mais popular do planeta. A máquina pertencia à Rico e antes à DHL. Ela nasceu em 1982 e está com cerca de 63.000 ciclos de voos executados, algo como 60% de sua vida útil. O avião fará o transporte de encomendas das Americanas e por isso está envelopado com o logo da loja. Quem está pilotando essa operação é o Orlando Menezes, ex-Varig, que teve uma empresa que fazia voos ligando Maringá (PR) ao aeroporto de Campo de Marte (SP) com Embraer Bandeirante. Ele organizava pacotes para a comunidade italiana no Brasil resolver questões de cidadania na Europa. Orlando criou até uma empresa que fornecia sobremesas para refeitórios de empresas. Em 2001 fundou a AirBrasil, uma companhia também cargueira que prestava serviços de transporte para os Correios e sustentou o estresse desse negócio até que o corpo não agüentou. Em 2005 ele desenvolveu um câncer e passou o controle da empresa, que chegou a voar dois 727-200F. E para comprovar o vício causado pelo aerococus, ele, que poderia prosseguir com uma vida de aposentadoria tranquila, resolveu voltar à ativa, sem brincadeira, com outra companhia aérea. Em 2015 viu que o mercado estava aberto para uma empreitada dessas e no ano seguinte formou a Asas Linhas Aéreas. Certificado, precisou pisar um pouco nos freios por conta da pandemia, mas em seguida recebeu a oferta do contrato com as Americanas. O comércio digital a cada dia vê a maior necessidade de trabalhar com uma estrutura de logística menos dependente dos Correios e do transporte das encomendas nos bojos das aeronaves das linhas aéreas principais. O Mercado Livre fez isso com a Sideral, que tem alguns de seus 737 pintados de amarelo com o logotipo do cliente. A malha da Asas inicialmente será em voos entre São José dos Campos (SP), Salvador (BA) e Recife (PE). Deve ter um sequenciamento para Belém (PA). De lá, a Asas pode seguir para Manaus (AM) e pegar outras cargas para serem levadas para o sudeste. Nas contas de Orlando, cerca de 60 a 70% de seu transporte se concentrará no comércio eletrônico. Ele também pretende oferecer serviços de atendimento expresso. É de se lembrar que as Americanas fecharam uma parceria com a BR Distribuidora e terão lojas de conveniência em postos de combustíveis. Assim como a Gollog, que está explorando pequenos comércios como pontos de coletas e entregas de encomendas expressas. Não fica difícil imaginar uma futura simbiose semelhante com a participação da Asas. A escolha pelo 727 recaiu em cima da disponibilidade, capacidade de carga e, obviamente, de preço. A Asas comprou o exemplar com recursos próprios. O trijato está avaliado no mercado em US$ 1,5 milhão. Um Boeing 737-400F muito usado como cargueiro pode sair por US$ 5 milhões e apesar de beber bem menos combustível, algo como 1.500lt de querosene a menos por hora de voo, deixa 10 toneladas de carga ou 60 passageiros no chão se comparado com o 727. A referência aos viajantes tem relação com o projeto de médio prazo que a companhia pretende. Eles querem trazer um Boeing 727-200 de passageiros, remotorizado, com um trio de Rolls-Royce Tay 651 semelhantes aos usados no Fokker 100, winglets nas pontas das asas e fazer voos fretados do Brasil para o Caribe, praticando preços mais baixos do que aqueles que, por exemplo, podem ser encontrados na Copa ou nas companhias aéreas americanas, com a vantagem de serem voos diretos. Também estão de olho numa demanda de passageiros no Vale do Paraíba. No entorno de São José dos Campos há cerca de 1,5 milhão de habitantes, 10% com condições de comprar uma passagem para os voos que a Asas pretende realizar, o que pode gerar uma demanda média de 11.000 passageiros por mês, 300 passageiros diariamente, o que seria um belo número para quem tem dois aviões disponíveis para o serviço. Em seis anos, a Asas quer ter uma frota de dois 727 de passageiros e quatro cargueiros. Eles sabem que um dia deverão partir para um 737, muito porque, se ainda existem cerca de quatro dezenas de 727 em condições operacionais no planeta e peças não faltam, há apenas um centro de treinamento de voo em simulador no mercado. E isso pode virar um entrave. De qualquer forma, a Asas pode revalidar um nicho, já que nos anos de 1990 houve uma safra de surgimento de empresas de voos fretados, mas que sucumbiram pela diminuição dos contratos com os Correios e falta de administração das despesas fixas, como as de leasing de aeronaves. O Orlando enquanto isso mantém o seu sonho com um pouco mais de pé no chão. O projeto começa sem uma quantidade de despesas fixas que poderiam minar a sua operação. É preciso agora ficar de olho nas mudanças de mercado, como a das demandas e ritmos do comércio eletrônico. E para o passageiro talvez seja a oportunidade de voar num clássico. Tem muita gente que vai querer pagar por isso.

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